quarta-feira, janeiro 14, 2009

VOCÊ É COMPETENTE? COMO AVALIAR A COMPETÊNCIA PROFISSIONAL DO INTENSIVISTA.

Na saúde e para a saúde, as transformações ocorrem desde a forma de organização do trabalho, associada às alterações do perfil epidemiológico e do padrão demográfico de uma população. Nesse contexto, é importante reconhecer as modificações que decorrem da implantação de novas tecnologias, voltadas para uma melhor assistência. Todo esse processo é vivenciado por nós, sem muitas vezes darmos conta da complexidade que engloba a Terapia Intensiva.

No Brasil, tais modificações ocorrem no bojo do processo de consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), com esforços para concretizar os princípios éticos, doutrinários, organizacionais e operativos, no que diz respeito à saúde, definindo-a como um direito de todos e um dever do Estado, cabendo a esse garantir políticas públicas sociais e econômicas que assegurem o bem-estar físico, mental e social da população. Mas como concretizar esses princípios? Como garantir que seremos cuidadores e um dia cuidados por um profissional competente? Qual é o perfil desejável de um profissional intensivista?

Para responder a essa pergunta, devemos inicialmente nos reportar a formação dos profissionais de saúde, onde as políticas educacionais, tem nas diretrizes curriculares o falso ideal de ofertar uma educação norteada pelo desenvolvimento de competências, que deve estar dirigido à busca da integralidade da atenção à saúde, contribuindo para a formação de um profissional que agregue aptidões para tomada de decisões, comunicação, liderança, gerenciamento e educação permanente, que nada mais é do que a educação desenvolvida através das necessidades de cada serviço.

Com isso, as competências devem ser permeadas pelos conhecimentos, habilidades e atitudes, possibilitando a atuação e a interação multiprofissional para o desenvolvimento do currículo formal e informal, onde as experiências de ensino-aprendizagem, determinadas pelo contexto político, social, cultural e econômico, garantam uma formação polivalente e voltada para a visão globalizada da realidade, com a atitude contínua de aprender a aprender.

As mudanças conceituais e organizacionais citadas refletem-se, inevitavelmente, no planejamento de processos de educação profissional, evoluindo do “treinamento” para o desenvolvimento coletivo de competências para o trabalho a ser executado, sendo este, para Zarifian (2001), encarado como “uma seqüência de eventos, de situações singulares, que reagem umas às outras em um regime de modificação da maneira de produzir.”

Uma fonte de desafios para o profissional intensivista está no que diz respeito ao ambiente de trabalho, onde a possibilidade de criar ocupações inovadoras deve ser estimulada. Um outro aspecto a ser considerado é a comunicação, que, na atualidade afigura-se como essencial para o trabalho, na medida em que envolve a construção de um entendimento recíproco e de bases de compromisso, que serão a garantia do sucesso das ações desenvolvidas em conjunto. Já a simples observação do trabalho de qualquer intensivista evidencia um contato permanente deste com situações e acontecimentos diversificados e imprevistos, em sua prática profissional, muitas vezes desenvolvidas em seu próprio ambiente de trabalho, ou seja, através do currículo informal.
Um estudo sobre competência profissional que merece ser revisado, situa-se em um extenso trabalho publicado no JAMA em 2002, onde, Epstein e Hundert abordaram a competência profissional na formação médica, conceituando-a como:

“...o uso habitual e criterioso de comunicação, conhecimento, habilidades técnicas, raciocínio clínico, emoções, valores e reflexão na prática cotidiana, visando o benefício do indivíduo e da comunidade atendida.”

Para os autores, a competência profissional, pode ser desmembrada em sete dimensões, que devem ser desenvolvidas e utilizadas nos problemas da vida real. Sendo elas:
• Cognitiva: Habilidade da comunicação básica; é o aprendendo com experiências.
• Técnica: são as habilidades práticas, como o exame físico realizado diariamente.
• Integrativa: Incorporação clínica, científica e crítica.
• Contexto: é o uso do tempo, a possibilidade de atuar nos diversos cenários de trabalho.
• Relacionamento: habilidades na fala e comunicação, na relação com o paciente e com a equipe.
• Moral/ Afetivo: inteligência emocional, como o respeito frente ao paciente.
• Habilidades Mentais: Observação, curiosidade, capacidade de auto-avaliação.
Com a pretenção de mostrar as particularidades desenvolvidas pelo intensivista, podemos voltá-las para o nosso dia-a-dia.

• COGNITIVA: é a capacidade de solucionar problemas e identificar lacunas no próprio conhecimento. Trata-se também da autonomia na construção ativa e na atualização do próprio conhecimento. A dimensão cognitiva encontra-se presente, pois diariamente deparamo-nos com o novo, tanto do ponto de vista do conhecimento técnico-científico, como frente as instabilidades das funções vitais de cada paciente. A equipe em geral e os familiares dependem do conhecimento e do raciocínio imediato dos profissionais envolvidos na dinâmica da UTI para sanar dúvidas e solucionar problemas.
• TÉCNICA: refere-se às habilidades profissionais (realização de manobras e procedimentos, utilização de novos aparelhos e materiais). A competência técnica deve ser especialmente desenvolvida, pois em qualquer procedimento, seja de baixa, média ou alta complexidade, percebemos que as competências complementam-se, pois para o desenvolvimento da técnica o profissional deve ter absorvido o julgamento científico, presente na competência integrativa, descrita a seguir.
• INTEGRATIVA: é o julgamento científico, clínico e humanístico, inter-relacionando o conhecimento básico ao profissional, bem como a capacidade de lidar com situações de incerteza. A estabilização de parâmetros hemodinâmicos em pacientes na terapia intensiva é um bom exemplo para justificar o desenvolvimento desta competência. Nos cuidados intensivos, a equipe deve estar atenta a uma gama variada de dados, a estes soma-se a necessária atenção aos familiares. Sendo assim, devemos atuar de forma integrada, com inúmeros fatores determinantes do prognóstico do paciente crítico.
• CONTEXTUAL: mostra a capacidade de atuar em diferentes cenários de trabalho e de administrar o tempo. Tempo é vida e na terapia intensiva há uma constante corrida pela vida, onde o tempo é precioso e muitas vezes sem perceber, utilizamo-nos da capacidade contextual para atuar e cuidar dos diferentes pacientes e suas patologias. A equipe é guiada pela prescrição de cuidados e procedimentos onde cada paciente é único, portanto, nenhum pós-operatório de cirurgia cardíaca é igual ao outro, o que requer um direcionamento ao grupo frente aos cuidados.
• RELACIONAL: refere-se ao trabalho em equipe e à habilidade de comunicação interpessoal vivenciadas, principalmente em situações de conflito. Devido à fragilidade humana, o ambiente de UTI é muito estressante, pois o limite entre a vida e a morte são constantes na prática desses profissionais. O estresse e a ansiedade estão incorporados à dura rotina das equipes, porém a precisão dos cuidados é fundamental, o que valoriza o uso da competência relacional.
• AFETIVO-MORAL: é definida pela capacidade cuidadora, de tolerância, respeito e responsabilidade individual e social do profissional. Os atributos cuidadores da terapia intensiva vêm sendo descritos há décadas, e ao intensivista compete estimular o cuidado integral. Hoje temos implantado na maioria dos serviços, tanto públicos como privados, a questão custo versus qualidade, o que representa um desafio substancial em coordenar cuidados de alto nível de complexidade com a humanização e os princípios éticos.
• HÁBITOS MENTAIS: esta dimensão volta-se para a observação da própria prática (auto-avaliação), a atenção sistemática, a curiosidade crítica, bem como o desejo de reconhecer e corrigir os próprios erros. Esta talvez seja a com s\petência mais difícil de ser desenvolvida, considerando-se o grau de maturidade necessária para que o profissional realize, honesta e objetivamente, uma auto-avaliação constante. Trata-se de um exercício, onde prática, perseverança e força de vontade são fundamentais para o reconhecimento e a mudança de hábitos incorporados ao longo de uma vida profissional.

Logo, na terapia intensiva, devemos considerar as margens efetivas de autonomia e inovação que permite, desenvolver os modelos de gestão e a divisão das tarefas existentes no contexto organizativo, que muitas vezes não nos damos conta. Sendo difícil, ainda que possível, avaliar desempenhos individuais, descrever analiticamente e reconhecer, em seu conjunto, uma competência profissional, em cuja construção parecem estar vinculadas tanto à aquisição de escolaridade quanto a processos de aprendizagem informais, que ocorrem em momentos e espaços distintos.

Por isso, a competência é sempre caracterizada de um saber com o qual se opera com uma especificidade (Winograd 1988) tipicamente humana, não assimilável por nenhuma máquina, por mais sofisticada que seja. Portanto, a competência resulta, assim definida, pela capacidade de enfrentar incertezas mediante prestações construídas de momento em momento, antecipadamente segundo um esquema de “job-skills”, o que torna necessário repensar o papel de cada profissional na terapia intensiva, sobre a noção de experiência de trabalho, pesquisa, experimentação e relações sociais, buscando como benefício nossa constante luta: a recuperação do paciente crítico.

Enfª Renata Andréa Pietro P. Viana
Presidente do Departamento de Enfermagem AMIB
Chefe do Serviço de Terapia Intensiva do HSPE-SP