30 novembro 2008

QUAL A MELHOR TEMPERATURA NO TRATAMENTO DO TCE GRAVE?

Tokutomi T et al: Neurosurgery 2003; 52:102-112.
Os autores estudaram os efeitos da hipotermia (33 graus Celsius) em 31 pacientes com trauma craniano (TCE) grave (Glasgow igual ou menor do que 8) e observaram que: 1) A redução da temperatura até 35 graus Celsius diminuíu a pressão intracraniana (PIC), porém, a redução da temperatura para valores inferiores a 35 graus Celsius não se acompanhou de redução adicional da PIC; 2) a maior pressão de perfusão cerebral ocorreu aos 35 graus Celsius; 3) A saturação venosa jugular permaneceu normal durante a hipotermia; 4) O débito cardíaco reduziu progressivamente com a hipotermia. Com base nesses achados, os autores sugerem que a melhor temperatura para tratar os pacientes com TCE grave seja 35 graus Celsius. Nesta temperatura, ocorre a combinação mais favorável entre valores de PIC e PPC.

Flávio E. Nácul

23 novembro 2008

LIVRO SUGERIDO

Título: COMO OS MÉDICOS PENSAM
Autor: Jerome Groopman
Editora: Agir
ISBN: 9788522009398

No livro, o Dr Jerome Groopman comenta de maneira inteligente o raciocínio dos médicos ao atender pacientes. O Dr. Jerome Groopman é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard e é Chefe do Departamento de Medicina Experimental do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston - USA. Sua pesquisa concentrou-se em doenças hematológicas, câncer e AIDS. Ele escreve sobre medicina e biologia na revista The New Yorker e é autor de dois livros de sucesso, The Measure of Our Days (A Medida de Nossos Dias) e Second Opinions (Segundas Opiniões), que inspirou um seriado de televisão.


Flávio Nácul

21 novembro 2008

Participe da pesquisa sobre Pneumonia Comunitária Grave- Clique aqui para responder

Caro Colega,

Até o presente momento já contamos com mais de 400 respostas! Caso não tenha participado, responda e divulgue no seu serviço. Segue o convite abaixo.

Vimos por este meio convidá-lo a participar neste inquérito internacional sobre “Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) grave: práticas de estratificação, diagnóstico e tratamento”. Este inquérito pretende delinear o panorama atual da percepção da abordagem da PAC grave por médicos intensivistas, internistas, pneumologistas e de outras especialidades clínicas envolvidas no seu tratamento. Este inquérito será aplicado simultaneamente no Brasil, Portugal e Espanha e conta com o apoio de sociedades e organizações médicas locais.
O inquérito será disponibilizado por via eletrônica na internet e é totalmente anônimo, de modo a não permitir a sua identificação.
Ele é composto de três seções abordando diagnóstico, estratificação e tratamento. O preenchimento demora cerca de 10 minutos e as instruções estão na página inicial.
O inquérito ficará disponível na Internet no período de 15 de Outubro a 15 de Dezembro de 2008.
Ajude-nos a divulgá-lo. Quanto mais profissionais participarem, maior será a sua representatividade e melhor será a nossa capacidade de desenhar estudos futuros sobre estes temas que estejam de acordo com a realidade e as necessidades dos doentes com PAC grave.
Para ter acesso ao site com o inquérito clique no link abaixo e caso não consiga o acesso, copie e cole na barra de endereços do seu browser o seguinte endereço:

http://www.surveymonkey.com/s.aspx?sm=3b_2bD3oQYhC2Qqh62gbo8Uw_3d_3d

http://www.surveymonkey.com/s.aspx?sm=3b_2bD3oQYhC2Qqh62gbo8Uw_3d_3d

Muito obrigado pela sua participação.
Atenciosamente,

Comité Coordenador do Estudo

Jorge Salluh
Coordenador da UTI do Instituto Nacional de Câncer, RJ
Coordenador da Brazilian Research in Intensive Care Network (BRICnet www.bricnet.org )

Thiago Lisboa
Critical Care Department, Joan XXIII University Hospital, University Rovira & Virgili, Institut Pere Virgili, CIBER Enfermedades Respiratorias, Tarragona, Spain.

Pedro Póvoa
Coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Médicos, Hospital São Francisco Xavier, Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental
Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal.

18 novembro 2008

Conhecendo melhor as infecções por bactérias multiresistentes

Para aumentar nosso conhecimento sobre infecções por Multiresistentes.


Research

Determinants and impact of multidrug antibiotic resistance in pathogens causing ventilator-associated-pneumonia

Pieter Depuydt et al

Critical Care 2008, 12:R142doi:10.1186/cc7119


Published: 17 November 2008

Abstract (provisional)

Introduction

It is still debated whether multidrug antibiotic resistance (MDR) in pathogens causing ventilator-associated pneumonia (VAP) is an independent risk factor for adverse outcome. We aimed to identify the determinants of multidrug antibiotic resistance (MDR) versus non-MDR microbial etiology in VAP and assessed whether MDR versus non-MDR VAP was independently associated with increased 30 days mortality.

Methods

We performed a retrospective analysis of a prospectively registered cohort of adult patients with microbiologically confirmed VAP, diagnosed at a university hospital intensive care unit during a three-year period. Determinants of MDR as compared to non-MDR microbial etiology and impact of MDR versus non-MDR etiology on mortality were investigated using multivariate logistic and competing risk regression analysis.

Results

MDR pathogens were involved in 52 of 192 episodes of VAP (27%): methicillin-resistant Staphylococcus aureus in 12 (6%), extended-spectrum beta-lactamase producing Enterobacteriaceae in 28 (15%), MDR Pseudomonas aeruginosa and other non-fermenting pathogens in 12 (6%). Multivariable logistic regression identified the Charlson index of comorbidity (OR 1.38, 95% CI 1.08-1.75, p=0.01) and previous exposure to more than two different antibiotic classes (OR 5.11, 95% CI 1.38-18.89, p=0.01) as predictors of MDR etiology. 30 days mortality following VAP caused by MDR versus non-MDR was 37% and 20% (p=0.02) respectively. A multivariate competing risk regression analysis showed that renal replacement therapy prior to VAP (Standardized Hazard Ratio (SHR) 2.69, 95% CI 1.47-4.94, p=0.01), the Charlson index of comorbidity (SHR 1.21, 95% CI 1.03 -1.41, p=0.03) and septic shock upon ICU admission (SHR 1.86, 95% CI 1.03 - 3.35, p=0.03), but not MDR etiology of VAP, were independent predictors of mortality.

Conclusions

The risk of MDR pathogens causing VAP was mainly determined by comorbidity and prior exposure to more than two antibiotics. The increased mortality of VAP caused by MDR as compared to non-MDR pathogens was explained by more severe comorbidity and organ failure prior to VAP.

14 novembro 2008

A mortalidade por choque séptico realmente reduziu nos últimos anos ?

Existe dúvida: a mortalidade pelo choque séptico reduziu nos últimos anos ?
O artigo de Friedman et al (1998) já havia mostrado redução desde a década de 50 até a metade da de 90. Mas tantas intervenções promissoras como controle glicêmico, corticoterapia, proteína C ativada recombinante e a reposição volêmica "early goal directed therapy", tiveram duros golpes nos último ano (2007-2008) e existe dúvida se a mortalidade continua reduzindo, e se é realidade, se ela ocorre por conta destas medidas.
Alguns problemas existem e atrapalham a responder esta pergunta. Primeiramente, a incidência de casos de sepse aumentou nos últimos 15-20 anos. A maior quantidade de casos leva também também a um aumento do número absoluto de mortes, mas precisa-se avaliar a tendência relativa desta mortalidade. Martin demonstrou em 2003 que a mortlaidade relativa caiu desde 1979 nos EEUU, principalmente após o final da década de 80. Annane demonstrou que de 1993 a 2000 houve redução absoluta de 6 % na mortalidade (62 para 56%). A Sociedade Australiana e Neozelandeza conferiu 4% de queda na mortalidade. Entretanto, quando se associa sepse e SARA, a mortalidade ainda é alta, e é incerto se a ventilação protetora reduziu a mortalidade na SARA por sepse (existem evidências que em muitos centros a estratégia de volumes correntes baixos não é respeitada, o que também atrapalha esta análise).
Porém, em alguns tipos de doenças específicas, pode-se conferir redução na mortalidade de choque séptico: neoplasias (redução de até 35% em sepse por bactérias Gram-negativas; Danai, 2006); idosos (redução de 16% com adoção de protocolos de tratamento da sepse - EGDT, controle glicêmico, corticoterapia, proteína C ativada; El Solh, 2008); pacientes HIV-positivos (incerto, mas possível redução na mortalidade após era da terapia antiretroviral); crianças (melhora na reposição volêmica, ação prejudicial de corticóide, benefício com uso de imunoglobulinas e ECMO).
Mesmo com estudos recentes que desanimaram a adoção de algumas estratégias (por exemplo, CORTICUS), deve-se ressaltar benefício em reconhecer precocemente e tratar melhor pacientes com choque séptico. Podemos apontar algumas razões para a redução da mortalidade de pacientes internados em Unidades de Tratamento Intensivo (e não só choque séptico):
- reposição volêmica precoce (primeiras 6 a 12 horas);
- melhor monitorização hemodinâmica, sem precisar necessariamente cateter de Swan-Ganz (menos invasivos: delta PP, elevação de membros inferiores, outras);
- antibióticos administrados em até 1-2 horas do diagnóstico de sepse;
- prevenção de infecções nosocomiais (por ex. elevação da cabeceira da cama - VAP);
- estratégia de transfusão conservadora (Hb 7-9 g/dl é aceitável na maioria dos doentes);
- ventilação protetora (redução de volume corrente para 4-7 ml/kg e controle de pressão platô até 30 cmH2O);
- suporte nutricional hipocalórico;
- suporte renal (choque = uso contínuo);
- enfim, "bundles", ou melhor, o conjunto destas estratégias através de pacotes e "checklists".
Como em última análise a maioria dos doentes que morrem em UTI, a causa principal é choque séptico e Síndrome de Disfunção Múltipla Orgânica, tratar melhor e prevenir infecções devem ser primordiais.
Baseado em: Christaki E e Opal SM. Is the mortality rate for septic shock really decreasing? Curr Op Crit Care 2008; 14:580.
André

09 novembro 2008

ARTIGO CLÁSSICO - DESCRIÇÃO DA SARA

Acute respiratory distress in adults. DG Ashbaugh, DB Bigelow, TL Petty, BE Levine. Lancet. 1967; 2(7511): 319-23. 

A história da descrição da SARA coincide em muitos pontos com a história do desenvolvimento da terapia intensiva, já que, até o desenvolvimento dos respiradores de pressão positiva, os pacientes com SARA não sobreviviam por tempo suficiente para que seu diagnóstico fosse propriamente estabelecido.

Em 1821, Laennec descreveu a patologia do edema pulmonar sem insuficiência cardíaca no livro "A Treatise on Diseases of the Chest" e o classificou como "anasarca idiopática dos pulmões". Em 1950, o edema pulmonar se tornou um tema de procura na National Library of Medicine, entretanto, não se fazia distinção entre as causas cardiogênicas e não-cardiogênicas. Com o desenvolvimento dos CTIs e da ventilação artificial, pacientes com infiltrados pulmonares agudos, difusos e bilaterais rapidamente passaram a ser reconhecidos pelos intensivistas - nessa época, supunha-se que todos os casos de SARA eram secundários a VILI, daí o termo utilizado - "respirator lung".

Em 1967, Ashbaugh, Bigelow, Petty e Levine descreveram uma entidade clínica conhecida como "acute respiratory distress in adults". Esse artigo reconheceu pela primeira vez que a SARA era uma entidade fisiopatológica própria que podia ser iniciada por uma miríade de insultos  - aspiração de conteúdo gástrico, sepse, trauma, quase-afogamento, etc. Esse artigo não apenas descreveu a clínica da SARA, seu aspecto histopatológico como já sugeria que a aplicação de PEEP era importante no controle da doença. 

A descrição da SARA corrobora o ditado que diz que a sorte vem apenas para aqueles que estão preparados. Em 1964, Petty começou a trabalhar na Universidade do Colorado e estava montando 0 laboratório adjacente aos CTIs clínico e cirúrgico. Petty tinha um aparelho de gasometria e, procurando pelo hospital por material com que pudesse equipar o CTI e o laboratório, achou um ventilador Engstrom volume-controlado, com PEEP ajustável, que foi utilizado na epidemia de poliomelite. Petty, então levou o ventilador recém-descoberto para o CTI.

Em uma noite em 1964, Dave Bigelow estava desesperadamente tentando ventilar uma paciente vítima de acidente automobilístico e que, apesar de todos os esforços, não conseguia manter a pO2 acima de 44mmHg. Sem mais o que tentar, Bigelow aumentou a PEEP e o resultado foi um importante aumento da pO2. Algum tempo depois, outro paciente vítima de pancreatite aguda grave , também com hipoxemia importante, teve grande melhora da oxigenação após a aplicação da PEEP por Petty. Ambos os pacientes apresentavam infiltrados difusos, bilaterais e necessitavam de altos níveis pressóricos para ventilar. 

A partis desses dois primeiros pacientes, o grupo foi a procura de mais casos de hipoxemia grave refratária associada a diminuição da complacência do sistema respiratório. Foram encontrados 12 pacientes em um ano, dos quais apenas 5 sobreviveram. Todos  que foram para a necrópsia tinham como característica histopatológica pulmões colapsados com membrana hialina e debris intra-alveolares. Em 2 pacientes observou-se redução do surfactante pulmonar.

Dessa forma, com a descrição desses 12 pacientes no Lancet em 1967, nascia a SARA.

Cássia Righy

08 novembro 2008

Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) grave: práticas de estratificação, diagnóstico e tratamento: clique no titulo para participar!

Caro Colega,

Até o presente momento já contamos com mais de 300 respostas! Caso não tenha participado, responda e divulgue no seu serviço. Segue o convite abaixo.

Vimos por este meio convidá-lo a participar neste inquérito internacional sobre “Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) grave: práticas de estratificação, diagnóstico e tratamento”. Este inquérito pretende delinear o panorama atual da percepção da abordagem da PAC grave por médicos intensivistas, internistas, pneumologistas e de outras especialidades clínicas envolvidas no seu tratamento. Este inquérito será aplicado simultaneamente no Brasil, Portugal e Espanha e conta com o apoio de sociedades e organizações médicas locais.
O inquérito será disponibilizado por via eletrônica na internet e é totalmente anônimo, de modo a não permitir a sua identificação.
Ele é composto de três seções abordando diagnóstico, estratificação e tratamento. O preenchimento demora cerca de 10 minutos e as instruções estão na página inicial.
O inquérito ficará disponível na Internet no período de 15 de Outubro a 15 de Dezembro de 2008.
Ajude-nos a divulgá-lo. Quanto mais profissionais participarem, maior será a sua representatividade e melhor será a nossa capacidade de desenhar estudos futuros sobre estes temas que estejam de acordo com a realidade e as necessidades dos doentes com PAC grave.
Para ter acesso ao site com o inquérito clique no link abaixo e caso não consiga o acesso, copie e cole na barra de endereços do seu browser o seguinte endereço:

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Muito obrigado pela sua participação.
Atenciosamente,

Comité Coordenador do Estudo

Jorge Salluh
Coordenador da UTI do Instituto Nacional de Câncer, RJ
Director da Divisão de Pesquisa da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB)
Coordenador da Brazilian Research in Intensive Care Network (BRICnet www.bricnet.org )

Thiago Lisboa
Critical Care Department, Joan XXIII University Hospital, University Rovira & Virgili, Institut Pere Virgili, CIBER Enfermedades Respiratorias, Tarragona, Spain.

Pedro Póvoa
Coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Médicos, Hospital São Francisco Xavier, Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental
Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal.

SOBRE ERROS E PROGNÓSTICO EM MEDICINA INTENSIVA

Iatrogenic Delirium and Coma - A "Near-Miss" 
Dunn WF, Adams SC, Adams RW. Chest. 2008; 133: 1217-20.

Clicar no título do post para ter acesso ao abstract do artigo.

Esse artigo é, em realidade, um relato de caso sobre um erro diagnóstico ocorrido há dez anos. O interessante deste artigo é que dois dos autores, Shirley e Robert Adams, não são profissionais de saúde e, sim, a paciente vítima do erro e seu marido que vieram a público relatar o ocorrido em uma revista médica respeitada como a Chest.

Na ocasião, Shirley tinha 66 anos e foi admitida no setor de emergência devido a dor torácica, tendo sido diagnosticado infarto agudo do miocárdio. Rapidamente evoluiu com choque cardiogênico e PCR em fibrilação ventricular, sendo ressuscitada e encaminhada ao cateterismo, onde se visualizou uma estenose crítica de DA e oclusão completa de CD. Durante a angioplastia ocorre dissecção da DA, com piora do choque, necessidade de balão intra-aórtico e a paciente é levada  a revascularização miocárdica de emergência.

Durante a evolução do pós-operatório no CTI, a paciente apresentava resposta inespecífica aos estímulos álgicos alternado com momentos de agitação, quando era contida fisicamente e sedada com lorazepam. A equipe médica assistente diagnosticou encefalopatia anóxica com mau prognóstico a longo prazo. O marido, entretanto, insistia que a paciente era capaz de reconhecê-lo e apertava a sua mão. Inconformado, ele a transferiu para outro hospital em busca de uma segunda opinião. 

Ao chegar em outro hospital, aventou-se a possibilidade de sedação residual. Foram administrados duas doses de 0,5mg de naloxona, sem resultado e cinco doses de flumazenil. A paciente acordou e, com o cuff da traqueostomia desinsuflado respondeu, ao ser perguntada sobre seu nome: "Shirley. Meu nome é Shirley Adams". Oito dias após esse evento ela recebeu alta para casa.

Olhando o caso retrospectivamente, percebe-se que a paciente alternava momentos de sedação extrema e delirium, ambos sendo reforçados negativamente pelo uso de lorazepam. O diagnóstico de delirium nem sempre é fácil, ainda mais há dez anos, quando pouco se falava sobre o tema e se compreendia muito menos do que hoje seus fatores desencadeantes e perpetuadores. Entretanto, o prognóstico neurológico após PCR é ainda mais difícil e esse caso nos alerta tanto para o manejo do delirium na terapia intensiva quanto para o peso de um prognóstico médico apressado pode ter na vida (ou morte) dos nossos pacientes.

Cássia Righy


01 novembro 2008

SEÇÃO DE ENFERMAGEM: É SIM UMA QUESTÃO DE VALOR

A discussão sobre a crise financeira mundial ganhou espaço nos jornais, tele-jornais, rádio, internet, enfim na mídia e ultimamente faz parte de nosso cotidiano. O sobe-e-desce das Bolsas de Valores, a incerteza no mercado, as grandes perdas de capital, para especialistas, podem ter efeitos graves sobre a sociedade, que vão desde o agravamento de sinais de depressão e de distúrbios mentais até a doenças mais graves.

Para entendermos um pouco a crise, trago algumas questões e dados poucos conhecidos por nós, que vivemos, lemos e respiramos artigos científicos. Como funciona o Mercado Financeiro? Os maiores bancos centrais do mundo, utilizam seus recursos para prestar socorro aos mercados financeiros. Em seis ocasiões, entre os anos 90 e 2000, muitos bilhões de dólares, foram gastos para estancar as crises. Com a crise mexicana de 1994, gastou-se 47 bilhões. Em 2007, a chamada crise do subprime, ou seja, a crise no setor imobiliário americano colocou os mercados em pânico. Com isso, os bancos centrais dos Estados Unidos, União Européia, Japão e Austrália, entraram em ação com 420 bilhões, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Na revista Exame de 29 de agosto de 2007, há uma entrevista com o maior filósofo mundial do risco, Peter Bernstein. Sobre as lições que esta crise nos oferece, Bernstein ressalta: "a maioria das crises financeiras – ou talvez todas elas desenvolveu-se a partir de uma situação em que 99% das pessoas não tinham informação. É aí que fica perigoso – quando ninguém desconfia de que algo pode estar errado. Precisamos prestar atenção nos sinais da economia e julgar isso. Na crise atual, correr grandes riscos virou quase motivo de orgulho. Investir em empréstimos subprime não é diversificar riscos. É ter milhares de créditos podres. Mas havia a sensação de que as inovações do sistema financeiro resolveriam todos os problemas. Não vamos ter outra crise dessas por algum tempo, porque a lição será aprendida. Mas pode levar tempo para o sistema se regenerar."

Então nos perguntamos: mas o que isto tem a ver com minha rotina, meu serviço, ou com a terapia intensiva? Em nosso primeiro encontro neste BLOG falamos sobre qualidade de vida, olha aí, o comprometimento de um quesito fundamental para a saúde do profissional da saúde.

A crise financeira afetando a qualidade de vida de cada um de nós! Muito mais que uma crise econômica, o sobe-e-desce das bolsas pelo mundo, incertezas, perdas e instabilidade no mercado interno e externo, tem causado uma verdadeira avalanche na vida de muitas pessoas. Mais do que dinheiro, os americanos, principalmente, estão perdendo a tranqüilidade e em alguns casos, a estabilidade financeira.

Todas estas dúvidas e perdas têm causado um aumento considerável no número de pessoas que procuram os centros de saúde, disse um funcionário do órgão de saúde americano em uma entrevista a rede de televisão americana CNN. As pessoas estão muito ansiosas e isso afeta toda a família, tornando-os mais agressivos. Ainda nesta entrevista, foi mostrado que nos institutos de saúde, um dos grande problemas estão relacionados ao sono, poucos conseguem dormir poucas horas durante a noite.

Logo, o estilo de vida faz com que os americanos tenham um foco sempre na conquista, financeira, principalmente, e quando começam a perder confiança, se tornam mais vulneráveis, a imunidade fica baixa, e a saúde passa a ser prejudicada. Olha aí imunidade baixa, pessoas mais suceptíveis as doenças. Será que isso não tem a ver conosco ? Somos cuidadores e zelamos pelo cuidar !

Em outra entrevista, a professora de Psiquiatria Clínica na Universidade da Califórnia em San Diego, Judith Bardwick, avaliou que a enxurrada de manchetes nos jornais descrevendo o declínio da economia americana exacerbou sentimentos de impotência em um período de instabilidade no mercado de trabalho. "É um sentimento de medo, depressão e ansiedade, que nos diz que não importa o quão duro, ou bem, trabalhemos, não tenho controle sobre o meu futuro", explicou Judith, referindo-se a costumes arraigados no modo de vida dos americanos
de investir, graças ao crédito, em grandes casas, automóveis, viajar e consumir.

Mas não é apenas a população que está sofrendo com a crise, pela primeira vez em pelo menos uma década, o consumidor americano tenta viver com menos remédios. Ao responder à crise financeira pagando primeiro por itens necessários como comida e moradia, os americanos passaram a comprar menos remédios em todo o país.

O Dr. James King, Presidente da Academia Americana de Médicos de Família afirma: "As pessoas agora têm que escolher entre o gás, a comida e os remédios", disse. "Alguns pacientes me disseram que pararam de tomar o Lipitor® porque simplesmente não têm dinheiro para comprá-lo", Ao longo de agosto, o número de remédios vendidos nos Estados Unidos foi menor do que nos primeiros oito meses do ano passado, de acordo com uma análise recente do IMS Health, empresa de pesquisa que acompanha a venda de medicamentos.

No início do mês de outubro, a gigante farmacêutica Pfizer, fabricante do Lipitor, o remédio mais vendido do mundo, disse que a venda do medicamento nos Estados Unidos caiu 13% no terceiro quadrimestre do ano. Apesar de outros motivos também estarem presentes, como a preocupação em relação à segurança de remédios antes populares e a mudança de alguns medicamentos que passaram a exigir receita, muitos médicos e outros especialistas dizem que a dificuldade financeira é o maior motivo da queda nas vendas.

A tendência, caso continue, pode ter efeitos profundos. Caso muitas pessoas tentem economizar evitando a compra de remédios, situações antes controláveis podem se tornar enormes problemas de saúde. Eventualmente isso pode aumentar a conta da saúde pública e diminuir o padrão de vida do país. Apesar do declínio na compra de remédios não passar de 1%, de acordo com dados do IMS Health, essa é a primeira queda em mais de uma década de crescimento constante, impulsionado pelo envelhecimento da população e a chegada de novos remédios. Esse fato é justificado pelo Dr. Timothy Anderson, analista farmacêutico da Sanford C. Bernstein que teve acesso aos dados do IMS e foi o primeiro a anunciar a queda na venda dos remédios na semana passada, afirmou que a queda no volume está “ligada a uma piora no ambiente econômico".

Jack Hoadley, analista de políticas médicas da Universidade de Georgetown, afirmou: "Eles irão dividir as pílulas, tomá-las dia sim, dia não, e farão muitas outras coisas sem consultar seus médicos. Nós conversamos com vários setores da sociedade. Eles olham para seus remédios e dizem: 'Esse é um que eu não preciso realmente'. Eles não deixarão de tomar remédios contra a dor, porque irão se sentir mal.Mas deixarão de tomar os medicamentos contra o colesterol porque não sentem seu efeito".

A possibilidade do aumento de enfermidades, entre elas o suicídio já preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), que lançou uma nota recentemente (outubro) durante uma reunião com especialistas, em Genebra, na Suíça. A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, disse que “não devemos nos surpreender ou menosprezar as perturbações e as possíveis conseqüências da crise financeira”.

Já existem estatísticas que comprovam que há um aumento de suicídio em momentos de crise econômica. Durante a Grande Depressão em 1929 (quebra da Bolsa de Nova York) houve um aumento de suicídio. No Brasil, durante o Plano Collor, que confiscou a poupança, também houve um aumento de suicídio”.

Por falar em Brasil, aqui não estamos nem um pouco longe de entrar em uma fase parecida, o problema é que o nosso sistema de saúde ainda é falho, trata apenas o sintoma aparente, isso quando consegue ter acesso a algum tratamento, apesar de sabermos que quem necessita do sistema de saúde geralmente não tem grandes somas financeiras aplicadas, mas de uma forma ou de outra sempre acaba afetando as condições econômicas e conseqüentemente emocionais da população.

Sendo assim, as mudanças afetam não somente a enfermagem, mas todos nós que trabalhamos com a saúde (ou falta dela), por isso é importante conhecermos os processos, o cuidar deve ser visto como um modelo produtivo, que devem ser revistos e reformulados. Os novos processos e tecnologias causam a dispensa de mão de obra direta e indireta, mas com forte aumento de produtividade. Com isso, o desemprego cresce incontrolavelmente acompanhado pela crise, o que nos leva a refletir que precisamos de mão de obra escolarizada, com iniciativa, autonomia e competência para fazer frente a estas mudanças. Pois novas habilidades são exigidas: flexibilidade, capacidade de negociação, compreensão da atividade produtiva e do ambiente de trabalho. A boa capacidade de comunicação, trabalho em equipe, tomada de decisões, disposição para mudanças, o autodesenvolvimento, a aprendizagem permanente, criatividade, autonomia e mais outras tantas competências devem estar imbuídos no profissional globalizado, não só para a melhoria dos cuidados prestados, mas para a “guerra” no mercado de trabalho.

Certamente, as políticas de saúde no Brasil caracterizam-se pelo vínculo estreito com as políticas de Previdência Social, sobretudo no que diz respeito à forma de financiamento, havendo instâncias responsáveis por excelência pela saúde: O Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde.

Por isso, recuperar a trajetória das políticas de saúde e da conformação do sistema de saúde demanda destaque para as principais características nos diferentes momentos históricos. Nos tempos de crise, o melhor é manter a calma, manter-se informado, favorecer o corpo e a mente (o que geralmente cuidamos apenas do outro), e isso sim, é uma questão de valor!


Enf Renata Andréa Pietro P. Viana
Presidente do Departamento de Enfermagem AMIB
Chefe do Serviço de Terapia Intensiva HSPE - São Paulo - SP






Transfusão de hemácias na UTI: após 20 anos

  Título: Red Blood Cell Transfusion in the Intensive Care Unit. Autores: Raasveld SJ, Bruin S, Reuland MC, et al for the InPUT Study Group....