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16 setembro 2023

Alguém teve sepse; quando a vida voltará ao normal ?

Em setembro, aproveitamos o dia 13 para propagar o combate à Sepse no mundo inteiro. É uma iniciativa da Sociedade Alemã de Medicina Intensiva, apoiada pelo Ministério da Saúde daquele país. A sepse é uma disfunção orgânica (ou disfunções), ameaçadora da vida, causada por resposta desregulada à uma infecção. O tratamento precisa ser rápido para que o paciente tenha maior chance de sobreviver. Há inclusive um guideline que é revisado a cada 4 anos, e todos seguem as recomendações a nível mundial.

Mas a Sepse é uma síndrome que vai além da fase aguda, porque as disfunções orgânicas podem demorar a desaparecer ou melhorar. De 20% a 50% morrem durante a hospitalização índice. Os pacientes que sobrevivem e saem do hospital, precisam ainda de cuidados e reabilitação por tempos variáveis, mas isso ainda é pouco estudado.

Um estudo recente trouxe mais informações sobre o pós-alta dos sobreviventes, com foco a saber se eles retornam ao trabalho prévio ao quadro de Sepse. Foi realizado na Alemanha, retrospectivo, a partir de seleção de 7.370 casos/contas de sobreviventes, a partir da base de dados nacionais com código de CID de sepse associado a infecções e disfunções orgânicas.

Cerca de 60%-70% consegue retornar ao trabalho após 1 ano. É comum que pacientes que retornam ao seu local de trabalho precisem mudança de cargo ou tarefas, redução da remuneração ou da jornada de trabalho. Os fatores que mais afetam este retorno são: idade maior, presença de comorbidades prévias e número e gravidade de  disfunções orgânicas. A internação em UTI (para suporte a alguma ou várias disfunções orgânicas) reduz a chance de retorno ao trabalho à metade.

A temporalidade da observação da coorte foi esclarecedora no tangente ao acompanhamento: as taxas de recuperação são crescentes entre 6 meses e 1 ano, mas discretamente decrescente em 2 anos. Cerca de 60%-65% dos pacientes consegue se recuperar e volta a trabalhar até 6 meses após saída hospitalar. Há um ganho de aproximadamente 10% dos pacientes retornando ao trabalho entre 6 meses e 1 ano. Mas parece haver um declínio de ~ 13% em 2 anos (se afastam do trabalho após retorno).

Após 1 ano, muitos pacientes permanecem com problemas clínicos ativos, que embora estejam compensados, limitam as atividades diárias (35%-41% dos pacientes sobreviventes).

De 4% a 7% apresentam problemas psicológicos (ex. desordem de estresse pós-traumático, ansiedade) isoladamente.

Problemas de cognição são muito limitantes e permanecem em torno de 3%-4% dos sobreviventes que voltam a trabalhar, geralmente associados a desordens clínicas e/ou psicológicas. Mas a cognição está afetada em quase 12% daqueles que não retornam ao trabalho.





Resumindo, o acometimento da sepse perpassa muitas vezes a fase mais aguda que é tratada no hospital, mesmo havendo sucesso com o tratamento precoce: declínios clínico, psicológico e cognitivo são prevalentes e precisam de cuidados após a alta hospitalar. Somente assim, será possível para o paciente retornar ao seu trabalho de maneira eficaz. O ajuste de função pode ser necessário e precisa de muita atenção mesmo após o retorno ao trabalho, porque alguns desistem entre 1 e 2 anos após a alta hospitalar.

Referência:
- Struzek et al, Return to work after sepsis—a German population-based health claims study. Front Med 2023; Published online 2023 May 25. doi: 10.3389/fmed.2023.1187809

23 agosto 2014

ENFERMAGEM: QUALIDADE DE VIDA

Século XXI, estamos no terceiro milênio e vivemos um momento de efervescência tecnológica e constatação de que a tecnologia não dá conta das necessidades do ser humano. Percebemos diariamente, em nosso cotidiano, novas formas de monitorização e monitoração na terapia intensiva, sempre em busca do melhor e mais adequado suporte ao paciente grave. Mas nunca nos perguntamos se toda esta tecnologia propicia qualidade de vida aos profissionais da saúde. Como é a qualidade de vida de quem cuida de vidas? Pesquisas e estudos sobre qualidade de vida tem crescido significativamente nos últimos anos, mostrando a preocupação em suprir o que o avanço tecnológico não foi capaz de fazer. Muitos termos são usados na literatura como sinônimos de qualidade de vida, tais como: bem-estar, felicidade, boas condições de vida e satisfação na vida. Um estudo realizada por Walcker & Avant relacionou os atributos incluídos quando o conceito de qualidade de vida é descrito ou definido. Os autores relatam que uma boa qualidade de vida permite ao profissional: a) avaliar um sentimento de satisfação com a própria vida em geral; b) desenvolver a capacidade mental de avaliar sua própria vida como satisfatória; c) garantir um estado aceitável de saúde física, emocional, mental e social; d) realizar uma avaliação objetiva, feita por outro profissional, garantindo que as condições de vida da pessoa são adequadas e não ameaçadoras à vida.
A qualidade de vida está intimamente ligada as elevadas taxas de absenteísmo que permeiam a enfermagem brasileira. O trabalho excessivo, os plantões estressantes e a baixa remuneração, levam as altas taxas de licenças médicas. Quantos profissionais temos hoje em nossa equipe afastados com diagnóstico médico de depressão, síndrome do pânico e estresse? Escalas reduzidas, que acabam desgastando ainda mais os poucos que restam na equipe. Não pensem que a taxa de absenteísmo é elevada apenas nos serviços públicos. O serviço privado também sofre com a falta dos profissionais que muitas vezes tem em sua historia uma qualidade de vida inadequada.
A qualidade de vida é uma dimensão complexa para ser definida e sua conceituação, ponderação e valorização vêm sofrendo uma evolução, que por certo acompanha a dinâmica da humanidade, suas diferentes culturas, suas prioridades e crenças. Para Romano, qualidade de vida é mais que simplesmente a ausência ou presença de saúde, abrangendo também educação, saneamento básico, acesso a serviços de saúde, satisfação e condições de trabalho, além de outros aspectos. Alguns estudos mostram que o tipo de trabalho onde há expectativa de vida influencia na melhor qualidade de vida dos profissionais de enfermagem. Em um estudo recente, os escores mais altos, apresentados pelos profissionais de enfermagem de Unidades de Terapia Intensiva ,teriam por exemplo, relação direta com a satisfação por atuarem naquele setor. Já os escores de mais baixa qualidade de vida da equipe de enfermagem da UTI eram relativos as dimensões comoa ausência de Atividades sociais,comunitárias e cívicas e Recreação, explicadas pela característica atribuída a esses profissionais, que tem em sua rotina o trabalho estressante, somado a mais de um turno de serviço e baixa remuneração.
Quando questionados sobre o que era bem estar os enfermeiros intensivistas responderam: ter um bom emprego, incluindo salário satisfatório; conseguir um tempo para o lazer e a família, ter saúde, alimentação, moradia e vestuário. Ao nos transportarmos para o real cenário da enfermagem brasileira, percebemos que muito falta para garantirmos qualidade de vida aos nossos profissionais. Compete ao enfermeiro uma ação direcionada para o desenvolvimento de atividades cada vez mais educativas, que devem também ser priorizadas pelas intituições, fazendo-se necessária a definição de estratégias que possam oferecer suporte psicológico aos profissionais diretamente envolvidos e que mais intensamente presenciam o processo de morrer dos pacientes, principalmente, médicos, enfermeiros e toda a equipe de multiprofissional, Desse modo, pode-se dizer que a questão da qualidade de vida diz respeito ao padrão que a própria sociedade define e se mobiliza para conquistar, consciente ou inconscientemente, e ao conjunto das políticas públicas e sociais que induzem e norteiam o desenvolvimento humano, as mudanças positivas no modo, nas condições e estilos de vida, cabendo parcela significativa da formulação e das responsabilidades ao denominado setor saúde. Partindo das idéias anteriores e corroborando a afirmativa de Rameix,de que a medida da qualidade de vida no universo da saúde é irreversível,torna-se fundamental uma precaução para que sua utilidade, ao definir prioridades no racionamento de recursos, não seja confundida com a máquina de triturar oposições, com que Cevasco rotula uma das características eficazes do neoliberalismo. Por outro lado, torna-se necessário investir muito ainda no aprofundamento do conceito e da mediação de promoção da saúde, para que signifique mais do que uma idéia de senso comum, programa ideológico, imagem-objetivo e possa nortear o sentido verdadeiramente positivo de qualidade de vida aos profissionais da saúde.
Quanto aos enfermeiros, cabe a reflexão e análise do que deve ser implementado na sua prática para garantir a melhoria de sua qualidade de vida. Como diria Olga Matos, “quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, o grau de bem-estar da sociedade e de igual acesso a bens materiais e culturais”.
Enf. Renata Pietro
Cordenadora de Enfermagem do CTI-HSPE-SP

07 junho 2010

Sobreviventes da sepse: o que acontece após a saída do hospital ?

Winters BD, Eberlein M, Leung J, Needham DM, Pronovost PJ, Sevransky JE. Long-term mortality and quality of life in sepsis: A systematic review. Crit Care Med 2010; 38:1276-1283.

Dando continuidade ao tema explorado por mim sobre sepse no último Post, abordarei, agora, um aspecto esquecido ou pouco valorizado no manejo desses pacientes. Em maio deste ano foi publicado na Cirt Care Med uma revisão sistemática sobre mortalidade e qualidade de vida dos pacientes sépticos após alta hospitalar. Muitos trabalhos apresentam end point usando como referência a mortalidade em 28dias, porém, os pacientes sépticos podem evoluir com complicações que geram seqüelas por longo tempo.

O delirium, injuria pulmonar aguda (ALI) e a miopatia do paciente crítico são alguns desses exemplos. Assim, estudos que utilizam outcomes de 28 dias podem subestimar as taxas de morbidade e mortalidade. Mesmo os quadros de sepse que não evoluem com essas complicações podem apresentar alterações significativas nessas taxas. Isto se deve a efeitos secundários em vários órgãos, como o sistema nervoso central, devido ao mecanismo patológico, reposta do hospedeiro ou ambos.

Dentro dos critérios de inclusão foram revistos estudos que analisavam mortalidade e qualidade de vida com no mínimo 90 dias após alta hospitalar. Os resultados demonstraram que os pacientes sépticos independente do grau de gravidade e da diversidade populacional continuavam a morrer em meses e anos após alta hospitalar (Figuras 1 e 2). Além disso, os índices de qualidade de vida utilizando o EuroQoL-5D e o SF-36 diminuiram ao longo do tempo. Os pacientes sépticos apresentaram prejuízo na qualidade de vida quando comparados com a população normal e com pacientes críticos sem sepse. Foi notado que doenças agudas, como a sepse, apresentam similar diminuição nos índices de qualidade de vida quando comparadas com as doenças crônicas (DPOC ou ICC).

Figura 1
Figura 2

Apesar de não ter tido controle sobre a incidência de ALI os resultados forma similares a trabalhos publicados anteriormente que estudavam esse grupo em especial, com exceção na menor incidência de incapacidade funcional. Os autores concluem que muitas podem ser as causas desse desfecho como hipotensão, toxinas, resposta ao stress (citocinas), resposta ao tratamento (corticóide), imobilidade e desenvolvimento de complicações tais como ALI. Além disso, sugerem que estudos futuros devem sistematizar a procura desses indicadores de desfecho a longo prazo.

Marcelo Grandi

11 maio 2010

ENFERMAGEM: QUALIDADE DE VIDA

Século XXI, estamos no terceiro milênio e vivemos um momento de efervescência tecnológica e constatação de que a tecnologia não dá conta das necessidades do ser humano. Percebemos diariamente, em nosso cotidiano, novas formas de monitorização e monitoração na terapia intensiva, sempre em busca do melhor e mais adequado suporte ao paciente grave. Mas nunca nos perguntamos se toda esta tecnologia propicia qualidade de vida aos profissionais da saúde. Como é a qualidade de vida de quem cuida de vidas? Pesquisas e estudos sobre qualidade de vida tem crescido significativamente nos últimos anos, mostrando a preocupação em suprir o que o avanço tecnológico não foi capaz de fazer. Muitos termos são usados na literatura como sinônimos de qualidade de vida, tais como: bem-estar, felicidade, boas condições de vida e satisfação na vida. Um estudo realizada por Walcker & Avant relacionou os atributos incluídos quando o conceito de qualidade de vida é descrito ou definido. Os autores relatam que uma boa qualidade de vida permite ao profissional: a) avaliar um sentimento de satisfação com a própria vida em geral; b) desenvolver a capacidade mental de avaliar sua própria vida como satisfatória; c) garantir um estado aceitável de saúde física, emocional, mental e social; d) realizar uma avaliação objetiva, feita por outro profissional, garantindo que as condições de vida da pessoa são adequadas e não ameaçadoras à vida.
A qualidade de vida está intimamente ligada as elevadas taxas de absenteísmo que permeiam a enfermagem brasileira. O trabalho excessivo, os plantões estressantes e a baixa remuneração, levam as altas taxas de licenças médicas. Quantos profissionais temos hoje em nossa equipe afastados com diagnóstico médico de depressão, síndrome do pânico e estresse? Escalas reduzidas, que acabam desgastando ainda mais os poucos que restam na equipe. Não pensem que a taxa de absenteísmo é elevada apenas nos serviços públicos. O serviço privado também sofre com a falta dos profissionais que muitas vezes tem em sua historia uma qualidade de vida inadequada.
A qualidade de vida é uma dimensão complexa para ser definida e sua conceituação, ponderação e valorização vêm sofrendo uma evolução, que por certo acompanha a dinâmica da humanidade, suas diferentes culturas, suas prioridades e crenças. Para Romano, qualidade de vida é mais que simplesmente a ausência ou presença de saúde, abrangendo também educação, saneamento básico, acesso a serviços de saúde, satisfação e condições de trabalho, além de outros aspectos. Alguns estudos mostram que o tipo de trabalho onde há expectativa de vida influencia na melhor qualidade de vida dos profissionais de enfermagem. Em um estudo recente, os escores mais altos, apresentados pelos profissionais de enfermagem de Unidades de Terapia Intensiva ,teriam por exemplo, relação direta com a satisfação por atuarem naquele setor. Já os escores de mais baixa qualidade de vida da equipe de enfermagem da UTI eram relativos as dimensões comoa ausência de Atividades sociais,comunitárias e cívicas e Recreação, explicadas pela característica atribuída a esses profissionais, que tem em sua rotina o trabalho estressante, somado a mais de um turno de serviço e baixa remuneração.
Quando questionados sobre o que era bem estar os enfermeiros intensivistas responderam: ter um bom emprego, incluindo salário satisfatório; conseguir um tempo para o lazer e a família, ter saúde, alimentação, moradia e vestuário. Ao nos transportarmos para o real cenário da enfermagem brasileira, percebemos que muito falta para garantirmos qualidade de vida aos nossos profissionais. Compete ao enfermeiro uma ação direcionada para o desenvolvimento de atividades cada vez mais educativas, que devem também ser priorizadas pelas intituições, fazendo-se necessária a definição de estratégias que possam oferecer suporte psicológico aos profissionais diretamente envolvidos e que mais intensamente presenciam o processo de morrer dos pacientes, principalmente, médicos, enfermeiros e toda a equipe de multiprofissional, Desse modo, pode-se dizer que a questão da qualidade de vida diz respeito ao padrão que a própria sociedade define e se mobiliza para conquistar, consciente ou inconscientemente, e ao conjunto das políticas públicas e sociais que induzem e norteiam o desenvolvimento humano, as mudanças positivas no modo, nas condições e estilos de vida, cabendo parcela significativa da formulação e das responsabilidades ao denominado setor saúde. Partindo das idéias anteriores e corroborando a afirmativa de Rameix,de que a medida da qualidade de vida no universo da saúde é irreversível,torna-se fundamental uma precaução para que sua utilidade, ao definir prioridades no racionamento de recursos, não seja confundida com a máquina de triturar oposições, com que Cevasco rotula uma das características eficazes do neoliberalismo. Por outro lado, torna-se necessário investir muito ainda no aprofundamento do conceito e da mediação de promoção da saúde, para que signifique mais do que uma idéia de senso comum, programa ideológico, imagem-objetivo e possa nortear o sentido verdadeiramente positivo de qualidade de vida aos profissionais da saúde.
Quanto aos enfermeiros, cabe a reflexão e análise do que deve ser implementado na sua prática para garantir a melhoria de sua qualidade de vida. Como diria Olga Matos, “quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, o grau de bem-estar da sociedade e de igual acesso a bens materiais e culturais”.
Enf. Renata Pietro
Cordenadora de Enfermagem da AMIB

05 outubro 2008

SEÇÃO DA ENFERMAGEM: Qualidade de vida: Medidas padrões para a Enfermagem

Século XXI, estamos no terceiro milênio e vivemos um momento de efervescência tecnológica e constatação de que a tecnologia não dá conta das necessidades do ser humano. Percebemos diariamente, em nosso cotidiano, novas formas de monitorização e monitoração na terapia intensiva, sempre em busca do melhor e mais adequado suporte ao paciente grave. Mas nunca nos perguntamos se toda esta tecnologia propicia qualidade de vida aos profissionais da saúde. Como é a qualidade de vida de quem cuida de vidas? Pesquisas e estudos sobre qualidade de vida tem crescido significativamente nos últimos anos, mostrando a preocupação em suprir o que o avanço tecnológico não foi capaz de fazer. Muitos termos são usados na literatura como sinônimos de qualidade de vida, tais como: bem-estar, felicidade, boas condições de vida e satisfação na vida. Um estudo realizada por Walcker & Avant relacionou os atributos incluídos quando o conceito de qualidade de vida é descrito ou definido. Os autores relatam que uma boa qualidade de vida permite ao profissional: a) avaliar um sentimento de satisfação com a própria vida em geral; b) desenvolver a capacidade mental de avaliar sua própria vida como satisfatória; c) garantir um estado aceitável de saúde física, emocional, mental e social; d) realizar uma avaliação objetiva, feita por outro profissional, garantindo que as condições de vida da pessoa são adequadas e não ameaçadoras à vida.

A qualidade de vida está intimamente ligada as elevadas taxas de absenteísmo que permeiam a enfermagem brasileira. O trabalho excessivo, os plantões estressantes e a baixa remuneração, levam as altas taxas de licenças médicas. Quantos profissionais temos hoje em nossa equipe afastados com diagnóstico médico de depressão, síndrome do pânico e estresse? Escalas reduzidas, que acabam desgastando ainda mais os poucos que restam na equipe. Não pensem que a taxa de absenteísmo é elevada apenas nos serviços públicos. O serviço privado também sofre com a falta dos profissionais que muitas vezes tem em sua historia uma qualidade de vida inadequada.

A qualidade de vida é uma dimensão complexa para ser definida e sua conceituação, ponderação e valorização vêm sofrendo uma evolução, que por certo acompanha a dinâmica da humanidade, suas diferentes culturas, suas prioridades e crenças. Para Romano, qualidade de vida é mais que simplesmente a ausência ou presença de saúde, abrangendo também educação, saneamento básico, acesso a serviços de saúde, satisfação e condições de trabalho, além de outros aspectos. Alguns estudos mostram que o tipo de trabalho onde há expectativa de vida influencia na melhor qualidade de vida dos profissionais de enfermagem. Em um estudo recente, os escores mais altos, apresentados pelos profissionais de enfermagem de Unidades de Terapia Intensiva ,teriam por exemplo, relação direta com a satisfação por atuarem naquele setor. Já os escores de mais baixa qualidade de vida da equipe de enfermagem da UTI eram relativos as dimensões comoa ausência de Atividades sociais,comunitárias e cívicas e Recreação, explicadas pela característica atribuída a esses profissionais, que tem em sua rotina o trabalho estressante, somado a mais de um turno de serviço e baixa remuneração.

Quando questionados sobre o que era bem estar os enfermeiros intensivistas responderam: ter um bom emprego, incluindo salário satisfatório; conseguir um tempo para o lazer e a família, ter saúde, alimentação, moradia e vestuário. Ao nos transportarmos para o real cenário da enfermagem brasileira, percebemos que muito falta para garantirmos qualidade de vida aos nossos profissionais. Compete ao enfermeiro uma ação direcionada para o desenvolvimento de atividades cada vez mais educativas, que devem também ser priorizadas pelas intituições, fazendo-se necessária a definição de estratégias que possam oferecer suporte psicológico aos profissionais diretamente envolvidos e que mais intensamente presenciam o processo de morrer dos pacientes, principalmente, médicos, enfermeiros e toda a equipe de multiprofissional, Desse modo, pode-se dizer que a questão da qualidade de vida diz respeito ao padrão que a própria sociedade define e se mobiliza para conquistar, consciente ou inconscientemente, e ao conjunto das políticas públicas e sociais que induzem e norteiam o desenvolvimento humano, as mudanças positivas no modo, nas condições e estilos de vida, cabendo parcela significativa da formulação e das responsabilidades ao denominado setor saúde. Partindo das idéias anteriores e corroborando a afirmativa de Rameix,de que a medida da qualidade de vida no universo da saúde é irreversível,torna-se fundamental uma precaução para que sua utilidade, ao definir prioridades no racionamento de recursos, não seja confundida com a máquina de triturar oposições, com que Cevasco rotula uma das características eficazes do neoliberalismo. Por outro lado, torna-se necessário investir muito ainda no aprofundamento do conceito e da mediação de promoção da saúde, para que signifique mais do que uma idéia de senso comum, programa ideológico, imagem-objetivo e possa nortear o sentido verdadeiramente positivo de qualidade de vida aos profissionais da saúde.

Quanto aos enfermeiros, cabe a reflexão e análise do que deve ser implementado na sua prática para garantir a melhoria de sua qualidade de vida. Como diria Olga Matos, “quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, o grau de bem-estar da sociedade e de igual acesso a bens materiais e culturais”.


Enfa. Renata Andréa Pietro P. Viana
Enfermeira Chefe do Serviço de Terapia Intensiva HSPE-SP
Presidente do Departamento de Enfermagem da AMIB.

Transfusão de hemácias na UTI: após 20 anos

  Título: Red Blood Cell Transfusion in the Intensive Care Unit. Autores: Raasveld SJ, Bruin S, Reuland MC, et al for the InPUT Study Group....