





















Estou disponibilizando a palestra sobre síndrome de compartimento abdominal, realizada em 11 de agosto, no simpósio de atualização em medicina intensiva, conjuntamente com o lançamento do volume 4 do livro com o mesmo nome.
Este blog tem como objetivo trazer informações e visões críticas sobre os estudos científicos recentes em medicina hospitalar e terapia intensiva. Também no Instagram: artigoscomentadosemmedicina
Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas para Tratamento da Hipoxemia
Pós-Operatória – Um Ensaio Controlado Randomizado
Squadrone V, Coha M, Cerutti E et al.
Contexto: a hipoxemia ocorre em 30% a 50% dos pacientes no pós-operatório de cirurgia abdominal, sendo necessário intubação traqueal para ventilação mecânica em cerca de 10% dos casos, o que sabe-se acarreta aumento da morbidade e mortalidade destes pacientes, além de prolongar o do tempo de internação na UTI e no hospital.
Objetivo: determinar o benefício do uso da pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) quando comparada com o tratamento padrão na prevenção da intubação traqueal e ventilação mecânica em pacientes que desenvolvem hipoxemia aguda no pós-operatório imediato de cirurgia abdominal eletiva de grande porte.
Desenho e local de realização do estudo: estudo randomizado, controlado, não cego, conduzido entre Junho de 2002 e Novembro de 2003 em 15 unidades de terapia intensiva do consórcio Piedmont Intensive Care Units Network da Itália.
Pacientes: pacientes consecutivos que desenvolveram hipoxemia aguda (PaO2/FiO2 <>
Intervenção: pacientes foram randomizados para receber oxigênio através de uma máscara Venturi (n= 104) ou oxigênio e CPAP não invasivo administrados através do uso de um capacete (n= 105).
Medidas e objetivos principais: o objetivo principal foi comparar a incidência de intubação traqueal, e os objetivos secundários foram descrever o tempo de internação na UTI e no hospital, a incidência de pneumonia, infecção e sepse, e a mortalidade hospitalar.
Resultados: os pacientes que receberam CPAP apresentaram uma menor taxa de intubação (1 vs 10%; p = 0,005; risco relativo [RR]= 0,099; intervalo de confiança [IC] de 95%= 0,001-0,76) e menor incidência de pneumonia (2 vs 10%; RR= 0,19; 95% IC= 0,04-0,88; p = 0,02), infecção (3 vs 10%; RR= 0,27; 95% IC= 0,07-0,94; p =0,03), e sepse (2 vs 9%; RR= 0,22; 95% IC= 0,04-0,99; p= 0,03) quando comparados com os pacientes tratados com oxigênio apenas. Pacientes que receberam CPAP ficaram menos dias em UTI (1,4 ±1,6 vs 2,6 ± 4,2; p= 0,09) do que os pacientes tratados somente com oxigênio, porém o tempo de internação hospitalar foi semelhante (15 ±13 vs 17 ±15 dias, respectivamente p = 0,1). Nenhum dos pacientes tratados com oxigênio mais CPAP morreu no hospital, enquanto três pacientes tratados apenas com oxigênio faleceram durante a internação (p =0,12).
Conclusão: CPAP pode reduzir a incidência de intubação traqueal e outras complicações graves em pacientes que desenvolvem hipoxemia após cirurgia abdominal eletiva de grande porte.
Comentários
A hipoxemia é observada em 30% a 50% dos pacientes no pós-operatório de cirurgia abdominal, mesmo quando não há intercorrências cirúrgicas1. Embora na maioria das vezes o uso de oxigênio e a espirometria incentivada sejam efetivas no tratamento desta condição2, cerca de 8% a 10% dos casos podem evoluir para insuficiência respiratória com necessidade de intubação traqueal e ventilação mecânica, levando a um aumento da morbidade e mortalidade, além de prolongar o tempo de internação na unidade de terapia intensiva e no hospital1-3. O principal responsável para o surgimento da hipoxemia no pós-operatório de cirurgia abdominal é o desequilíbrio da relação ventilação-perfusão, causado por áreas de atelectasia do parênquima pulmonar provocada pelo decúbito dorsal, por uso de altas concentrações de oxigênio, por disfunção diafragmática temporária, pela diminuição do clearence de secreções pulmonares e pela dor4-5. Vários estudos têm demonstrado que o uso da pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) em pacientes com hipoxemia pós-operatória melhora as trocas gasosas, minimiza a formação de atelectasia e aumenta a capacidade residual funcional7-10, entretanto não se sabe se essa melhora fisiológica corresponde a uma melhor evolução clínica, como já demonstrada com o uso do CPAP em pacientes com edema pulmonar cardiogênico11, com insuficiência cardíaca congestiva e problemas respiratórios relacionados ao sono12. Este estudo tem como principal objetivo esclarecer esta questão.
Foram selecionados pacientes sem doenças pulmonares prévias submetidos a laparotomia com tempo de exposição de vísceras superior a 90 minutos que desenvolveram hipoxemia – definida por relação entre a pressão parcial e a fração inspirada de oxigênio (PaO2/FIO2) menor ou igual a 300 - após 01 hora respirando com máscara de Venturi com FIO2 de 30%. Os pacientes foram randomizados em dois grupos e tratados por pelo menos 6 horas consecutivas conforme descrito: o grupo controle recebeu apenas oxigênio com máscara de Venturi e FIO2 de 50% e o grupo intervenção recebeu CPAP de
A utilização do capacete como interface para administração da CPAP, em valores de 7,5 cmH2O, pode explicar uma baixa taxa de intolerância (4%) quando comparada com estudos prévios (14%) que utilizaram máscara facial13. Estudos recentes demonstraram que embora a melhora na capacidade residual funcional e na oxigenação seja semelhante14, o uso do capacete melhora a tolerância, reduz a incidência de necrose de pele, de distensão gástrica e de irritação ocular, quando comparada à máscara facial15.
Outro aspecto interessante deste estudo é que os pacientes iniciaram o uso da CPAP assim que a hipoxemia pós-operatória foi detectada e a mantiveram por um período relativamente longo (19 ± 22 horas). A aplicação da CPAP foi interrompida somente após a correção da hipoxemia (persistência ou reversão da hipoxemia foram avalidas a cada 06 horas), ao contrário de outros estudos onde a utilização da CPAP foi tardia ao término da cirurgia16 ou por curto período de tempo17.
Os resultados deste estudo mostram que o uso precoce da CPAP de 7,5 cmH2O em pacientes com hipoxemia aguda após cirurgia abdominal eletiva de grande porte é bem tolerado e reduz a necessidade de intubação traqueal, tempo de internação na UTI, incidência de pneumonia, infecção e sepse, com baixo custo e segurança de uso.
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13. Delclaux C, L'Her E, Alberti C, Mancebo J, Abroug F, Conti G, Guerin C, Schortgen F, Lefort Y, Antonelli M, Lepage E, Lemaire F, Brochard L. Treatment of acute hypoxemic nonhypercapnic respiratory insufficiency with continuous positive airway pressure delivered by a face mask: a randomized controlled trial. JAMA. 2000; 284:2352-2360.
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16. Drummond GB, Stedul K, Kingshott R, Rees K, Nimmo AF, Wraith P, Douglas NJ. Automatic CPAP compared with conventional treatment for episodic hypoxemia and sleep disturbance after major abdominal surgery. Anesthesiology. 2002; 96:817-826.
17. Carlsson C, Sonden B,
Do Volume III da série ATUALIZAÇÃO EM MEDICINA INTENSIVA – ARTIGOS COMENTADOS
Efeitos da Pressão Expiratória Positiva Final
(PEEP) Elevada “ Baixa da Síndrome da
Angústia Respiratória Aguda
Effects of high versus low positive
end-expiratory pressures in acute respiratory
distress syndrome.
“Am J Respir Crit Care Med”
2005;171:1002-1008.
Grasso S, Fanelli V, Cafarelli A “et al.”
RESUMO
Um estudo recente do ARDS Network comparou a tradicional estratégia
de utilizar baixos níveis de pressão expiratória positiva final
(PEEP) com PEEP elevada em pacientes portadores da síndrome da angústia
respiratória aguda (SARA) ventilados com baixos volumes correntes.
Os resultados clínicos foram similares independentemente dos níveis
de PEEP utilizados. Os autores compararam a estratégia de PEEP
baixa (9 ± 2 cmH2O) com a de PEEP alta (16±1 cmH2O) em 19 pacientes.
Em nove pacientes submetidos à PEEP elevada, ocorreu umrecrutamento
alveolar significativo (587 ± 158 ml), melhora na relação
PaO2/FiO2 (150 ± 36 a 396 ± 138) e redução da elastância pulmonar
estática (23±3 a 20±2 cm H2O/l). Em10 pacientes submetidos à PEEP
baixa, o recrutamento alveolar foimínimo, a oxigenação não melhorou,
e a elastância pulmonar estática aumentou (26 ± 5 a 28 ± 6 cm H2O/l).
O aumento da oxigenação, a redução na elastância pulmonar estática e
a forma da curva pressão-volume durante a estratégia de PEEP baixa
foram independentemente associados ao recrutamento alveolar. Em
conclusão, o protocolo proposto pelo ARDS Network não possui uma
base fisiológica sólida, freqüentemente falha em induzir recrutamento
alveolar e pode aumentar o risco de hiperinsuflação alveolar.
COMENTÁRIOS
A lesão induzida pela ventilação mecânica (VILI) é um fenômeno inicialmentemecânico
secundário às elevadas forças de tensão e distensão
(estresse/strain) que o citoesqueleto pulmonar pode suportar em
pacientes com lesão pulmonar aguda (LPA) e SARA.1,2 O grupo do ARDS
Network mostrou em mais de 800 pacientes com SARA que o uso de
volume corrente (Vt) de 6ml/kg diminuiu a mortalidade emmais de 20%
comparado com o uso de Vt de 12 ml/kg.3 Esse estudo gerou grande
controvérsia pela possibilidade de que a diferença seja devida ao alto
grau de mortalidade no grupo de Vt alto.4,5
Além da hiperdistensão causada pelo uso de Vt elevados, a VILI
também pode ser induzida ou agravada por abertura e fechamento
repetidos de unidades alveolares instáveis, aquelas que se rompem
durante a expiração. Desse modo, o uso de PEEP elevada demonstrou
melhorar a sobrevida ao diminuir o chamado atelectrauma.6,7 Por este
motivo, o grupo ARDS Network comparou em um segundo estudo o uso
de PEEP baixa (9 ± 2 cmH2O) e alta (16 ±1 cm H2O) em pacientes com
SARA ventilados com Vt baixo (6 ml/kg).8 O estudo não mostrou diferenças
namortalidade emmais de 500 pacientes e foi abortado prematuramente.
Novamente, foi gerada uma controvérsia para explicar esse
resultado negativo.
O grupo de Grasso, da Universidade de Bari, repetiu esse estudo
comparando PEEP alta com baixa em 19 pacientes com SARA, seguindo
uma avaliação fisiológica bastante elegante e completa. Após 12 horas
em cada nível de PEEP, os autores realizaram medidas de fluxo, volume,
e pressão de via aérea e esofágica, para cálculo de PEEP intrínseca, elastância
do sistema respiratório, assim como do pulmão e da parede torácica.
Além disso, utilizando a técnica de fluxo lento, construíram curvas
pressão-volume que lhes permitiram medir o volume recrutado com a
estratégia de PEEP elevada. Os pacientes foram definidos como “recrutadores”
caso a estratégia de PEEP elevada induzisse um recrutamento
alveolar superior a 150 ml.
Os achados foram surpreendentes: apenas a metade dos pacientes
(n = 9, 47%) recrutou menos de 150 ml com a estratégia de PEEP elevada
(587±158 ml). Neles, as conseqüências da estratégia de PEEP elevada
foram favoráveis tanto na troca gasosa como na mecânica respiratória.
Por outro lado, o grupo que não foi submetido à PEEP elevada (n =
10, 53%), ao ser submetido à PEEP elevada segundo o algoritmo do
ARDS Network, nãomelhorou a troca de oxigênio, aumentando de forma
significativa a elastância pulmonar e do sistema respiratório. O
aumento da PaCO2, sem alteração de volume minuto nesse grupo,
sugere aumento do espaçomorto secundário a hiperdistensão alveolar.
O estudo de Grasso et al. segue uma linha fisiológica que demonstra
que a população de pacientes com LPA/SARA é altamente heterogênea,
e que nem todos respondem igualmente não apenas à PEEP, mas
também a manobras de recrutamento alveolar.9 Foi encontrada uma
grande variabilidade individual no potencial de recrutamento (PR) alveolar,
utilizando a tomografia computadorizada de pulmão na população
de 68 pacientes com LPA/SARA.10 O PR (definido como tecido pulmonar
não areado a 5 cm H2O que ganha aeração a 45 cm H2O) foi, em
média, de 13% ± 11% do peso pulmonar, mas foi altamente variável
entre os pacientes. O PR apresentou uma relação com o prognóstico,
pois PR mais elevada se associa a maior peso pulmonar e menor troca
gasosa e distensão toracopulmonar. De fato, ao dicotomizar a população,
os pacientes com maior PR apresentaram maior mortalidade que
aqueles com menor PR (41% versus15%, p = 0,02).
De acordo com os estudos de Grasso et al. e nossos dados, é evidente
que o segundo estudo do ARDS Network não foi adequadamente
planejado ao tentar encontrar diferenças entre o uso de PEEP baixa e
alta. Caso os pacientes com alto ou baixo PR sejam aleatoriamente atrelados
a uma estratégia de PEEP alta ou baixa, como foi utilizado em
ambos os estudos do ARDS Network, os possíveis benefícios de PEEP
alta em pacientes com alto PR podem ser ocultados por um dano causado
por esse mesmo nível de PEEP em pacientes com baixo PR e
vice-versa.
Tanto os estudos do ARDS Network como a nova evidência fisiológica
apontam para uma ventilação menos nociva e mais dirigida à
mecânica pulmonar do paciente. Acreditamos que avaliar o potencial
de recrutamento alveolar pode ter importância clínica para decidir a
melhor estratégia ventilatória em pacientes com SARA. Enquanto novos
estudos clínicos não são realizados, otimizar o recrutamento alveolar
e limitar as pressões a valores entre 28 e 32 cm H2O e o volume corrente
entre 6 e 8 ml/kg são parte dos objetivos primários da ventilação
protetora.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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patients with Acute Respiratory Distress Syndrome. N Engl J Med (2006)
Do Volume III da série ATUALIZAÇÃO EM MEDICINA INTENSIVA – ARTIGOS COMENTADOS
Editora Revinter , 2005
Título: Red Blood Cell Transfusion in the Intensive Care Unit. Autores: Raasveld SJ, Bruin S, Reuland MC, et al for the InPUT Study Group....