segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Quais são as indicações de transfusão de plaquetas ?

Platelet Transfusion: A Clinical Practice Guideline From the AABB. Kaufman RM, Djulbegovic B, Gernsheimer T, et al. Annals of Internal Medicine 2015; 162:205-13.

Segundo a American Association of Blood Banks (AABB), as indicações de transfusão de plaquetas são específicas. Reuniu 21 especialistas (15 hematologistas e outros 6 especialistas, incluindo 1 intensivista) e revisaram as evidências para transfusão de plaquetas. Vejam as principais resoluções do consenso:

1. As melhores evidências são nos pacientes com plaquetopenia grave após radio ou quimioterapia para tratar CA hematológico. A transfusão deve ser feita na vigência de sangramento grave ou profilaticamente com plaquetometria menor que 10.000/mm3. A dose pode ser a metade da dose tradicional (1 unidade por 10 kg de peso para subir 30-40 mil plaquetas por mm3). Não há eficácia de se usar o dobro da dose também.

2. 4 estudos clínicos randomizados avaliaram o limiar de 10.000 vs 20.000/mm3: não houve diferença da incidência de sangramentos, enquanto os pacientes com menos de 10.000/mm3 tinham mais dias com sangramento; reduzia-se a presença de efeitos colaterais (febre e alergias) transfundindo apenas com limiar de 10.000.

3. Recomenda-se punção de veia central com plaquetometria acima de 20.000/mm3. A incidência de sangramento grave associado a punção é menor que 4%. As evidências são fracas e o consenso optou por ser conservador.

4. Recomenda-se punção lombar diagnóstica ou terapêutica com plaquetometria acima de 50.000/mm3. Aqui as evidências são apenas de estudos observacionais e os experts são mais conservadores ainda: não se observou complicações em 2 séries de punções lombares em pacientes adultos (n=195 punções em 66 pacientes) ou pediátricos (n=5223 em 956 pacientes), mesmo quando a plaquetometria era menor que 20.000/mm3. Não há estudos clínicos avaliando a transfusão profilática de plaquetas antes de punções lombares.

5. Recomenda-se transfusão profilática se houver necessidade de cirurgia fora do neuroeixo e plaquetometria menor que 50.000/mm3. Não se indica plaquetas antes de circulação extracorpórea se não há plaquetopenia. Evidências de qualidade ruins e recomendações fracas.

6. Não há consenso nos casos de pacientes com AVE hemorrágico e que recebem medicações antiplaquetárias (aspirina, clopidogrel). Foram 5 estudos observacionais, reunindo 635 pacientes, e 1 estudo mostrou maior mortalidade com transfusão de plaquetas, outro mostrou benefício, e os 3 restantes não mostraram diferença de mortalidade. Parece racional oferecer transfusão de plaquetas se o pacientes estiver nesta situação, associado a contagem plaquetária menor que 100.000/mm3. Grau de recomendação incerto.

O ponto mais divergente entre este consenso e outros anteriores é o nível de plaquetometria que indica transfusão profilática antes de punções venosas centrais: 20.000/mm3. Outros consensos indicavam 50.000/mm3, porém com menor qualidade de evidências e baseados nas opiniões dos especialistas.

André Japiassú